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DOM QUIXOTE DE LA MANCHA

5 de setembro de 2011

O romance Dom Quixote de La Mancha, escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes e publicado em 1605 (1ª parte) e 1615 (2ª parte), é considerado por estudiosos como inaugurador do romance moderno. Vejamos o contexto em que se insere para compreender a importância da obra na história da literatura ocidental.

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Desde o século XII a Europa cultivava como principal forma de literatura as novelas de cavalaria, como aquelas lidas por vocês no livro Contos e lendas dos Cavaleiros da Távola Redonda. Estas dizem respeito ao chamado “ciclo arturiano”, (as histórias relativas ao rei Artur e seus fieis cavaleiros) e são as mais famosas das que chegaram até os dias de hoje. Inicialmente transmitidas pela tradição oral, cantadas por menestréis, bufões e jograis, estas histórias povoaram o imaginário do europeu medieval relatando feitos heróicos de grandes cavaleiros e suas igualmente incríveis histórias de amor. Abaixo, uma mostra de como era a música daquele tempo e algumas imagens que retratam as histórias de que falamos.

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Recolhidas por escritores da época, as histórias foram passadas para o papel e se tornaram um dos pilares da literatura ocidental. A cultura da cavalaria medieval está presente até hoje em nossa literatura, como na trilogia O senhor dos anéis, do sul-africano J. R. R. Tolkien, em seus seres encantados e homens vivendo grandes aventuras em busca de algum objetivo; ou mesmo nos filmes de Holywood com seus invencíveis super-heróis e mocinhas frágeis à espera da salvação. Nada disto é novidade dos séculos XX ou XXI, mas tem suas raízes nas novelas medievais. Abaixo você pode verificar as principais regras que estes cavaleiros seguiam para terem seus nomes imortalizados no imaginário popular.

Código da cavalaria

  • Proteger os fracos e os indefesos;
  • Defender a honra das mulheres;
  • Combater o mal e a injustiça;
  • Amar sua terra natal;
  • Temer a Deus, defender seu nome e a Igreja;
  • Servir ao senhor feudal ou rei em valor e fé.

Algumas cenas do livro lido por vocês nos remetem a isso. Por exemplo, vejamos o que diz Gornemant a Percival, o galês, ao conferir-lhe o título de cavaleiro:

Eu vos confiro a ordem de cavalaria, que não admite nenhuma baixeza. Não mateis vosso adversário vencido, se ele vos pedir clemência. Procurai não falar demais, ajudai o homem ou a dama que virdes em precisão e não deixeis de orar a Deus por vossa alma. (p. 45)

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Além disso, o cavaleiro era sempre inspirado por uma donzela e vivia as grandes aventuras em sua homenagem. Ele deveria amá-la incondicionalmente, bem como respeitá-la de acordo com uma concepção mística e idealizada do amor, chamada de

Amor cortês

  • Sempre heterossexual, em que o homem é protagonista das ações, e a mulher, espectadora;
  • Total submissão do enamorado à sua dama (por uma transposição do amor às relações sociais sob o feudalismo, o enamorado rende vassalagem à sua senhora);
  • A amada é sempre distante, admirável absolutamente perfeita em seus atributos físicos e morais;
  • O estado amoroso é equiparado aos sentimentos e imaginário religiosos, tornando-se uma espécie de estado de graça que enobrece a quem o pratica;
  • Os enamorados são sempre de condição aristocrática.

O mesmo Percival nos dá outro exemplo. Após derrotar Anguigueron, a narrativa dá conta da seguinte cena, iniciada com a fala deste último:

– Piedade! Poupe-me! Não seja cruel!

Percival lembrou-se do conselho do bom Gornemant e hesitou.

– Se você tem um senhor, mande-me a ele – insistiu o senescal. Contarei a sua vitória e depositarei nas mãos dele a minha sorte.

– Então vá ver o rei Artur. Cumprimente o rei por mim e peça que mostrem a você a moça que foi esbofeteada por Keu por ter rido ao me ver. Entregue-se prisioneiro a ela e diga-lhe que eu espero não morrer antes de vingá-la!

Percival voltou ao castelo sob as aclamações dos sitiados. E Brancaflor, desde então, amou-o. (p.53)

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Por último, é importante lembrar de uma outra característica marcante. O romance de aventuras evita confrontar a densidade psicológica ou problemática das personagens, que são sempre perfeitos em seu caráter e coragem. O enredo costuma dar preferência a se desenrolar pela mudança de espaços, e colocar frente a frente o herói com ambientes hostis, que ele é capaz de dominar.

Como se pode ver, as novelas de cavalaria são parte fundamental na moldagem de nossa visão de mundo. Que menina, especialmente adolescente, não espera seu príncipe encantado e o imagina um homem forte que lhe proteja? E que rapaz nunca se imaginou metido em uma situação de perigo para proteger aquela bela jovem que admira a distância e chamar sua atenção?

A revolução de Dom Quixote é, justamente, propor uma mudança neste padrão. De maneira irônica, seu enredo, ao mesmo tempo em que questionava o modo como a ficção era feita e lida, abre espaço para as primeiras reflexões teóricas acerca da literatura que viriam a influenciar esta forma de arte pelos séculos que se seguiram. Obra às mãos para continuarmos a aula.

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