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CONTEXTO HISTÓRICO E FILOSÓFICO DO REALISMO

6 de setembro de 2011

O que um tablet tem a ver com a literatura do século 19?

A nossa pouca idade nem sempre nos permite fazer isso com facilidade, mas, quando refletimos sobre o mundo, uma das coisas mais importantes a se fazer é nos despirmos de nossa própria realidade. O que isso quer dizer? Em primeiro lugar, entender que o mundo, hoje, acontece e se organiza de uma maneira diferente a muitas outras maneiras já passadas.

No tempo dos seus avós, por exemplo, talvez não fosse tão simples ir a um dentista e resolver um problema no dente, e extrair era mesmo a única solução. Anestesiar uma dor com a facilidade que temos hoje – dando aquele pulinho rápido na farmácia e comprando a baixo custo um analgésico que vimos anunciado na televisão – talvez não fizesse parte da realidade deles. As consultas médicas duravam muito mais tempo, às vezes em torno de uma hora com o clínico geral (espécime em risco de extinção com a imposição cada vez maior das especializações nas diversas áreas do conhecimento), e raramente se fazia algum exame como hoje, nem mesmo os mais simples, como um raio-x. A coisa se dava à base do diálogo, observação a longo prazo, muita reflexão e o bom e velho processo de tentativa-erro-acerto.

E a comunicação? Quanta diferença! Quando se ia ao cinema ou praia, era preciso marcar hora e locais certos para o encontro. Nada de “a gente se encontra lá pelo posto tal mais ou menos a tal hora” e pisar na areia e puxar celular. Se bem que, para isso, nem precisa ir ao tempo dos seus avós. Na minha infância, mesmo, naqueles anos 90 dos quais vocês mal se lembram, ainda era assim que os encontros funcionavam. No Maracanã, o ponto a ser marcado era invariavelmente o Bellinni. Mas, se regressarmos uma vez mais aos seus avós, vejam só: poucas eram as pessoas que, nos anos 40 ou 50, possuíam telefones em suas casas. Assim, muitas vezes era preciso deixar recado com algum vizinho, que só repassaria a mensagem ao interlocutor no final do dia, quando este chegasse do trabalho. E-mail, claro, sequer fazia parte da imaginação das pessoas. Era preciso escrever cartas que levavam dias para chegar ao destino, e mais outros tantos dias para se receber a resposta. Uma simples questão, como avisar a um amigo que você iria visitá-lo em São Paulo, precisava ser planejada com bastante tempo de antecedência. Não se resolvia esse tipo de coisa de quinta para sábado. Só se o caso fosse muito urgente. Aí, enviava-se um telegrama, que chegava no dia seguinte, mas era caro e tinha status de coisa grave – quando um destes chegava, o destinatário sentia um frio na barriga e logo se perguntava: “será que alguém morreu?”

Quando você pega seu tablet, seu smartphone, seu videogame conectado à internet e escuta as músicas do seu amigo ou vê as fotos da viagem dele e comenta sem sequer encontrá-lo, e logo depois inicia comunicação instantânea com alguém em outro continente, sequer percebe que as coisas já foram muito diferentes. Que o ritmo da vida era outro. Que a respiração, as conversas, as informações, a música, tudo se dava em um outro tempo. A verdade é que, estranhamente, o próprio tempo, ou a impressão que se tinha dele – das pequenas horas aos largos anos – acontecia de maneira muito mais lenta.

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A referência ao tempo dos seus avós foi apenas para você ter uma noção mais próxima à sua realidade e não precisar viajar séculos no tempo. Mas, na verdade, já na época deles se falava dessa “aceleração” da sociedade. O assombroso desenvolvimento tecnológico da nossa sociedade fez a vida se tornar gradativamente mais agitada e pautada pelos progressos materiais que afetavam a vida cotidiana de todos.

Vejamos ainda algumas considerações sobre este aspecto específico referido acima, segundo o verbete sobre Revolução Industrial retirado da Wikipedia:

Este desenvolvimento de que falamos, e que para nós, hoje, é algo absolutamente normal, foi uma surpresa no século 19, quando este fenômeno ganhou força com a expansão da Revolução Industrial. A produção de bens deixou de ser artesanal e passou a ser maquinofaturada;  o volume de produção aumentou extraordinariamente;  as populações passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos em busca de trabalho. As fábricas passaram a concentrar centenas de trabalhadores, que vendiam a sua força de trabalho em troca de um salário.

Outra das consequências da Revolução Industrial foi o rápido crescimento econômico. Antes dela, o progresso econômico era sempre lento (levavam séculos para que a renda per capita aumentasse sensivelmente), e após, a renda per capita e a população começaram a crescer de forma acelerada nunca antes vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a população da Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para 8,5, já entre 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões, devido à drástica redução da mortalidade infantil.

O vídeo abaixo ilustra bem essa drástica e positiva mudança vivida:

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Continuando com o verbete:

A Revolução Industrial alterou completamente a maneira de viver das populações dos países que se industrializaram. As cidades atraíram os camponeses e artesãos, e se tornaram cada vez maiores e mais importantes.

Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em um grande país, havia mais pessoas vivendo em cidades do que no campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres se aglomeravam em subúrbios de casas velhas e desconfortáveis, se comparadas com as habitações dos países industrializados hoje em dia. Mas representavam uma grande melhoria se comparadas as condições de vida dos camponeses, que viviam em choupanas de palha e conviviam com a falta de água encanada, com os ratos, o esgoto formando riachos nas ruas esburacadas.

O trabalho do operário era muito diferente do trabalho do camponês: tarefas monótonas e repetitivas. A vida na cidade moderna significava mudanças incessantes. A cada instante, surgiam novas máquinas, novos produtos, novos gostos, novas modas.

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As transformações ocorridas não se deram apenas no campo da produção material, mas também no pensamento científico-filosófico. Vejamos:

Positivismo: corrente de pensamento inaugurada pelo francês Auguste Comte, cuja ideia central era a de que o único pensamento válido era aquele que pudesse ser comprovado por teorias científicas ou matemáticas. O positivismo era uma filosofia empírica, o que significava que todo conhecimento dentro deste sistema poderia e deveria ser aplicado na prática a quaisquer situações e contextos como forma de ser legitimado.

 Determinismo: criado por H. Taine, parte do princípio de que o comportamento humano é determinado por três aspectos básicos: o meio, a raça e o momento histórico.

Darwinismo: Fruto da obra paradigmática A origem das espécies, de Charles Darwin, que propôs a teoria da seleção natural, para a qual somente as espécies mais aptas e capazes de adaptações conseguem sobreviver e perpetuar-se, conforme comprovado pela coleta de fósseis que o pesquisador fez. Foi aplicada às ciências humanas – chamada de darwinismo social –, propondo que a sociedade se divide em termos de poder e riqueza pela natural adaptação das pessoas ao seu meio: as mais evoluídas no topo da pirâmide social, e as mais “primitivas” em sua base.


O impacto destas transformações na produção literária foi, basicamente, a mudança do paradigma que norteava o Romantismo: sai de cena o subjetivismo exacerbado, e intensifica-se o seu oposto, a visão de mundo de cunho objetivista que propiciava toda essa ordem de transformações na vida das pessoas.


Agora, eu retorno à pergunta: O que a literatura do século 19 tem a ver com um tablet?

E, muito mais importante: o que tudo isso tem a ver com a estética literária que se observa no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis? 

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