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O PARNASIANISMO

27 de setembro de 2011

Conforme pudemos ver na introdução ao Realismo, a literatura brasileira produzida nos últimas décadas do século 19 refletia o ideário de seu tempo. As transformações operadas pela revolução industrial na Europa traziam uma nova corrente filosófica, caracterizada pela visão científica do mundo. Desta maneira, negava-se o sentimentalismo e as idealizações cultivadas pelos românticos, e em seu lugar surgiam textos que exploravam uma visão objetiva da sociedade, demonstrando suas contradições, seus aspectos negativos, comumente em tom frio e impessoal, de modo a fazer um retrato “realista” daquilo sobre o que se escrevia.

Até este momento, demonstramos a concretização literária de tal ideário nos textos em prosa, ou seja, nos romances, contos, novelas etc., em suma, nas narrativas ficcionais. Falta agora ver como esse mesmo ideário se converteu em expressão poética. Vejamos abaixo um poema de Olavo Bilac (1865-1918), representante maior deste período da poesia, para fazer algumas considerações iniciais:

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A um poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo , que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

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O poema acima, além de belo exemplar da arte de Bilac, é também uma espécie de manifesto, ou seja, uma “cartilha” que explica as regras para se fazer uma boa poesia, de acordo com os padrões estéticos defendidos pelo autor. Para começar, proponho duas questões exploradas pelo texto que dizem bastante sobre a forma como os poetas desta geração encaravam a poesia. Reflita:

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– Qual deve ser a principal condição de trabalho de um poeta, segundo o texto?

– Para o eu-lírico do poema, a beleza do texto surge da inspiração ou do trabalho?

– Quais são as referências culturais de beleza expressas pelo poema?

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Como você deve ter percebido, duas das principais ideias defendidas pelo poema são as de que 1) o poeta deve estar preservado de quaisquer interferências externas (“Longe do estéril turbilhão da rua“); que 2) o poeta só será capaz de produzir um texto de valor estético através do esforço e da dedicação (“Trabalha, e teima, e lima, e sofre e sua!“), e não da inspiração; e, por último, que 3) a referência estética é a Antiguidade Clássica (Rica mas sóbria, como um templo grego.)

Nestas três ideias lançadas pelo eu-lírico estão contidos, de maneira mais ou menos explícita, os principais fundamentos estéticos e ideológicos do Parnasianismo, como se convencionou chamar o estilo. Veja abaixo a lista elaborada por William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, autores do livro didático utilizado por vocês:

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Quanto ao CONTEÚDO, podem-se destacar:

– Objetivismo;

– Racionalismo, contenção das emoções;

– Apego à tradição clássica e à mitologia greco-latina;

– Arte pela arte.

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E, quanto à FORMA:

– Perfeição formal;

– Vocabulário culto;

– Gosto pelo soneto;

– Rimas raras/ricas e chave de ouro;

– Gosto pelas descrições.

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Dos pontos destacados acima, deve-se dar ainda mais atenção a dois deles: a ideia de arte pela arte, que resulta na perfeição formal. Vejamos o que dizem, sobre isso, novamente, Cereja & Magalhães:

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A “arte pela arte”

 Apesar de contemporâneo do Realismo e do Naturalismo, o Parnasianismo difere profundamente de ambos. Enquanto esses dois movimentos se propunham a analisar e compreender a realidade social e humana, o Parnasianismo se distanciava da realidade e se voltava para si mesmo. Defendendo o princípio da “arte pela arte”, os parnasianos achavam que o objetivo maior da arte não é tratar dos problemas humanos e sociais, mas alcançar a “perfeição” em sua construção: rimas, métrica, imagens, vocabulário seleto, equilíbrio, controle das emoções etc.

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Embora haja diferenças em relação ao que se propôs na prosa realista, há em comum o fato de ambos os estilos combaterem o sentimentalismo exacerbado e o papel central da subjetividade cultivados pelo Romantismo, o que certamente os faz produtos de uma mesma época. Além disso, certamente são influenciados pelo mesmo ambiente filosófico: note-se por exemplo que, tal qual o positivismo pensava a sociedade – que poderia ser explicada por leis intrínsecas, por regras próprias e imutáveis – assim também era vista a arte poética pelos parnasianos.

Vejamos, por fim, um poema de Alberto de Oliveira (1859-1937), em que também se podem encontrar algumas das características mencionadas acima. Leia-o com atenção e faça a escansão do mesmo para refletir com mais rigor sobre a estética parnasiana.

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Vaso chinês

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

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E o Dom Casmurro? Estão lendo? Na próxima aula, mais sobre o romance de Machado de Assis. Até lá.

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