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SÃO COSME, SÃO DAMIÃO E… QUEM MAIS?

27 de setembro de 2011

Queridos alunos e queridas alunas,

Neste dia 27 de setembro, em que tradicionalmente – embora cada vez menos – comemora-se o dia de São Cosme e São Damião, aproveito para trazer a vocês um pouco da nossa rica cultura popular. Explico: a festa de São Cosme e São Damião é representativa de uma de nossas mais bem estabelecidas manifestações frutificadas pelo sincretismo cultural e religioso das matrizes africana, indígena e europeia. Por isso mesmo, também, essa aula de hoje cumpre ainda uma outra função.

É que, talvez vocês não saibam, mas desde o dia 11 de março de 2008 está instituída no Brasil a LEI 11.645, cujo artigo 26-A afirma o seguinte:

Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

Em cumprimento à lei e ao meu papel de educador, bem como pela simpatia que tenho por quaisquer ações que combatam a desigualdade racial no nosso país – podem ter certeza: tratar uma determinada cultura como algo inferior é uma das formas mais antigas de dominar um povo; valorizá-la, por outro lado, é uma maneira de fortalecer politicamente esse mesmo povo -, a aula de hoje vai versar sobre esse assunto. Repito, novamente: é por cumprimento à lei, que é dever cívico, e por uma opção de transmitir a vocês conteúdo relacionado à pluralidade de nossa cultura que hoje falaremos sobre São Cosme, São Damião e as bases culturais africanas que inspiraram a festa.

Por se tratar de uma aula de literatura, aproveito, por último, para propor um trabalho de interpretação de texto e linguagens valendo-me de duas músicas de nosso cancioneiro popular que se encaixam nas vertentes menos valorizadas por aqueles que estudam nossa cultura, embora mais praticadas por nossa população – o samba e os ritmos de origem africana.

Vamos lá:

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Segundo nos relatam diversas outras fontes, São Cosme e São Damião eram dois irmãos gêmeos, cristãos, oriundos da península arábica que, por volta do ano 300 d.C., valeram-se de sua formação em medicina para peregrinar por diversos países operando curas sem nada cobrar em troca, fazendo-o sempre em nome de Jesus Cristo e com isso divulgando sua figura e sua história numa época em que ainda não era conhecido ou aceito como hoje. Ao contrário, era época de perseguição aos cristãos. Não à toa, o imperador romano da época, Diocleciano (244-311), encomendou a morte dos irmãos – o que não tardou a acontecer. Desde então, tornados mártires da história cristã, são cultuados como santos pela tradição católica.

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São Cosme e São Damião, por Gerhard Zeghers, pintor holandês do Renascimento

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Transplante de perna feito por São Cosme e São Damião e assistido por anjos. Pintura anônima do século 16, provavelmente da Alemanha.

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A história de São Cosme e São Damião chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses e de outros europeus que colonizaram ou ocuparam nosso país ao longo da história. Mas não foram apenas eles que popularizaram os santos e fizeram dos mesmo uma festa tão tradicional entre nossa população.

Como você deve saber, até o final do século 19, quase metade da população brasileira, como até hoje, era formada por africanos escravos e/ou seus descendentes, em situação de escravidão ou liberdade. Com tamanho influxo de africanos durante tantos anos de escravidão (o Brasil foi o país que recebeu a maior quantidade de africanos em toda a história da escravidão), nossa cultura não poderia deixar de ter a forte marca de nosso continente-irmão, ou, talvez melhor dizendo, nosso continente-mãe.

A explicação parece complicada, mas na verdade é simples. É que nas culturas africanas, tantos as de origem banto (da região de Angola, nossa principal matriz), quanto as de origem iorubá (da região da Nigéria) possuíam entidades religiosas, representadas por irmãos gêmeos, que detinham grande importância nos cultos dos povos em questão. Para os bantos, eram chamados de Nvunji e, para os iorubanos, de Ibejis.

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Nvunjis, os de origem banto. Em sua saudação, diz-se: Kiwá Nvunji pafunji mabasa, kiwá! (Salve Nvunji, felicidade dos gêmeos, salve!)

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Ibejis, os de origem iorubá.

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A diferença, no caso, é que para as culturas africanas esses dois gêmeos não eram adultos, e sim crianças. Foi isto que caracterizou a festa brasileira de São Cosme e São Damião como uma festa consagrada às crianças. Caso você não tenha entendido, vou explicar melhor:

Você certamente sabe que, durante o período colonial, a igreja católica, em nome do cristianismo, reprimiu os cultos religiosos africanos (bem como de a prática de toda a sua cultura, dos batuques à capoeira), pois acreditavam ser manifestações do demônio – o que, aliás, foi usado como justificativa para matar e escravizar milhões de africanos durante cerca de 350 anos. Vivendo essa difícil situação, só restava aos africanos a opção de fingir, perante seus senhores, que estavam cultuando os símbolos cristãos. Assim, começaram a fazer correspondências entre os seus deuses e aqueles dos cristãos. Por exemplo: Zâmbi (de origem banto) ou Oxalá (de origem iorubá), deuses maiores dessas culturas, correspondiam a Deus e Jesus Cristo. Quando um escravo orava perante a imagem de Cristo, muitas vezes trazia em seu pensamento o nome de Zâmbi ou Oxalá.

Com os Nvunjis e os Ibejis não foi diferente. Descobrindo a existência de São Cosme e São Damião e percebendo a popularidade que os gêmeos possuíam perante a comunidade cristã, os africanos passaram a cultuá-los em correspondência às suas entidades originais, mas sempre associando-os às crianças, cultuando-os como forma de pedir proteção aos mais jovens das comunidades e assim por diante. A oferta de doces e balas que se faz às crianças no dia de São Cosme e São Damião se origina deste fato – porque criança gosta mesmo de doce. Assim se foi fazendo nos centro de umbanda, candomblé, ou mesmo sem o compromisso direto com algum terreiro, por pessoas comuns, na ruas de suas comunidades, bairros etc.

Passado o tempo, essa relação se naturalizou e a origem sincrética foi esquecida, o que contribuiu para fortalecer ainda mais essa união. Hoje, muitos acreditam que São Cosme e São Damião são exatamente a mesma coisa que os Nvunjis e Ibejis, e muitos dos que não acreditam em Nvunjis ou Ibejis, mas apenas em São Cosme e São Damião, ainda assim prestam suas homenagens a eles ao modo dos africanos, e não dos cristãos, retratando-os como crianças e ofertando-lhes doces.

Veja como mesma as imagens católicas, com o tempo, se transformaram, criando uma representação infantil dos irmãos que, na tradição cristã original, eram adultos e médicos:

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São Cosme, São Damião e… quem mais?

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Por fim, o artista baiano Caribé fez uma famosa representação legitimamente afro-brasileira dos gêmeos. Veja abaixo:

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A apropriação brasileira das entidades: feições africanas, roupas europeias.

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Deixo, abaixo, uma bela música cantada pela sambista baiana Mariene de Castro em homenagem a São Cosme, São Damião, aos Nvunjis e Ibejis, como você preferir chamar – mas uma música que é homenagem, sobretudo, a essa tradição que soube, mesmo que por caminhos tortuosos e difíceis, integrar elementos das culturas europeia e africana, algo que está se tornando mais raro nos dias de hoje. A partir desta canção, vamos refletir um pouco sobre o que vimos acima, e também sobre o registro de linguagem empregado pela cantora.

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Ê Cosme, ê Cosme
Damião mandou chamar
Que viesse nas carreiras
Para brincar com Iemanjá

Cosme e Damião
Vem comer seu caruru
Cosme e Damião
Vem que tem caruru pra tu

São Cosme mandou fazer
Duas camisinha azul
No dia da festa dele
São cosme quer caruru
vadeia cosme, vadeia
To vadiando na areia

São Cosme São Damião
Dois meninos quer brincar
Bate palma sereia no mar
Dois dois ele quer adiar
Dois dois ele
brinca no mar

Cosme e Damião
Ô cadê dou
Cosme e Damião
Vem comer seu caruru

Vadeia dois-dois
Vadeia no mar
A casa é sua dois dois
Eu quero ver vadiar

Vamos levantar
o cruzeiro de Jesus
Pro céu, pro céu
Pro céu da Santa Cruz

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Feliz dia de São Cosme e São Damião!

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